Ralos de terraço e varanda: o que verificar antes das chuvas

Num prédio, a chuva tem dois caminhos para sair de cima. Um é o do telhado inclinado, com as caleiras e os tubos de queda — e é aí que quase toda a gente pensa em fazer manutenção antes do inverno. O outro é o das superfícies planas: os terraços e as varandas. Esse ninguém vê, porque não pinga nem transborda à vista de quem passa na rua.
Um terraço é, no fundo, uma bandeja com um furo. Tudo o que lá cai — chuva, folhas, terra dos vasos — tem de sair por um ralo pequeno. Quando a peça que protege esse ralo fica tapada, a água não desaparece: espalha-se em lâmina pelo pavimento e vai subindo até encontrar outra saída — muitas vezes, a soleira da porta. Tal como no telhado, a água de um terraço acaba num tubo, e manter as caleiras e a descarga do telhado a escoar é só metade do trabalho se o ralo do terraço estiver tapado.
Este artigo é sobre verificar antes. Se a água já entrou e há uma mancha no teto ou na parede, o caso é outro: comece por localizar por onde a infiltração está a entrar.
Como a água sai de um terraço
Perceber o percurso ajuda a saber onde olhar. Num terraço bem feito, há quatro coisas a trabalhar juntas:
- A pendente. O pavimento não é perfeitamente plano: tem uma inclinação ligeira que leva a água toda para o ponto de saída.
- O ralo e a pinha. No ponto mais baixo está o ralo, normalmente protegido por uma pinha — uma peça em forma de cúpula que deixa passar a água e segura as folhas — ou por uma grelha plana.
- O tubo que recebe a água. Do ralo, a água segue por um tubo de queda, embutido na parede ou à vista, até à rede de águas pluviais. Muitas vezes é o mesmo tubo que recebe a caleira do telhado.
- Uma saída de segurança. Muitos terraços têm uma segunda saída mais alta — um ladrão ou uma gárgula — para quando o ralo não dá conta.
Por baixo do mosaico há ainda a impermeabilização, a tela, que sobe um pouco pela parede para fazer o remate. É ela que impede a água de passar para o andar de baixo, e os pontos onde mais costuma falhar são o remate contra a parede e a ligação ao ralo.
O que verificar antes das chuvas
| Ponto | O que procurar | Porque importa |
|---|---|---|
| Pinha ou grelha do ralo | Folhas, terra, ninhos; pinha partida ou em falta | É a única saída normal da água |
| Ponto baixo do pavimento | Poças que ficam dias depois de chover | A pendente não está a levar a água ao ralo |
| Saída de segurança | Se existe e se está livre | É por onde a água sai se o ralo entupir |
| Soleira das portas | A altura entre o pavimento e a soleira | É o primeiro obstáculo que a água galga |
| Juntas e remate contra a parede | Fissuras, rodapé descolado, juntas abertas | É por aí que a água parada encontra caminho |
| Contorno do ralo | Argamassa fissurada ou solta à volta da boca | É a ligação do ralo à impermeabilização |
| Descarga do ralo | Se a água desce depressa depois de chegar ao ralo | O ralo pode estar limpo e a água ficar presa no tubo |
| Vasos e floreiras | Terra e raízes junto ao ralo, pratos em cima dele | A terra dos vasos acaba sempre no ralo |
1. A pinha e o ralo
Se o terraço de cobertura só tem acesso por alçapão ou não tem muro nem guarda à volta, não vá lá: essa verificação fica para quem tem meios de segurança.
Nos restantes casos, comece pelo óbvio. Retire à mão, com luvas, as folhas, a terra e o que mais se tenha juntado à volta da pinha — sem as empurrar para dentro do ralo. Levante a pinha, se sair com facilidade, e veja se a boca do ralo por baixo está livre.
Uma pinha partida ou em falta substitui-se: é uma peça simples e barata. O que não se deve fazer é tirá-la de vez «para escoar mais depressa». Sem ela, as folhas e a terra passam a descer diretamente para o tubo, e o entupimento muda-se para um sítio onde já não se vê nem se alcança à mão.
2. O teste do balde
Num dia seco, despeje um balde de água na zona mais afastada do ralo e observe. A água deve correr para o ralo sem hesitar e desaparecer em poucos segundos.
Se forma uma poça a meio caminho, há um ponto baixo e a pendente não está a funcionar ali. Se chega ao ralo mas demora a descer, o problema não está na pinha, está mais abaixo. E se escorre para junto da parede ou da porta em vez de ir para o ralo, é esse o caminho que a chuva vai fazer no inverno.
3. A lâmina de água e a soleira
Olhe para a porta que dá para o terraço ou para a varanda e veja quantos centímetros há entre o pavimento e a soleira. Em muitas varandas, é de poucos centímetros.
É essa a margem que tem. Com o ralo tapado numa chuvada forte, a água acumula-se em lâmina por todo o pavimento, e não precisa de subir muito para galgar a soleira e entrar por baixo da porta. Quanto mais baixa a soleira, mais importante é o ralo estar livre — e mais importante é a saída de segurança, se existir, não estar também tapada.
4. As juntas e o remate contra a parede
A água parada procura os pontos fracos, e num terraço eles estão quase sempre na ligação entre o pavimento e a parede: o rodapé descolado, uma junta aberta entre mosaicos, uma fissura no remate. Uma junta aberta deixa a água chegar à tela e, onde a tela estiver gasta ou mal rematada, é por aí que a água chega ao teto do andar de baixo.
Não é para abrir nem para picar nada. É para ver: se há juntas abertas, rodapé a soltar-se ou fissuras novas, convém que sejam avaliadas antes das chuvas, e não depois da primeira mancha no teto de baixo. E, ao contrário do que parece, uma camada de silicone por cima raramente resolve — esconde a junta sem refazer a impermeabilização por baixo.
5. Para onde vai a água depois do ralo
O ralo pode estar impecável e, mesmo assim, a água demorar a descer. Quando isso acontece, a obstrução está mais abaixo — no troço entre o ralo e o tubo de queda ou no próprio tubo, muitas vezes o mesmo que recebe a água do telhado, com uma bola de folhas presa numa curva.
Esse troço já não se limpa à mão a partir do terraço: é trabalho de limpeza de caleiras e tubos de queda, com meios próprios para chegar à obstrução. Se o tubo de queda for o mesmo do telhado, faz sentido tratar das duas coisas de uma vez — e o que se passa do lado das caleiras está explicado no guia sobre caleiras entupidas e infiltrações.
Terraço de cobertura ou varanda: quem trata de quê
Num prédio, convém saber de quem é o ralo antes de a chuva chegar.
O terraço de cobertura — o que serve de telhado ao prédio, mesmo que só uma fração lá tenha acesso — é parte comum. O Código Civil diz que são comuns «o telhado ou os terraços de cobertura, ainda que destinados ao uso de qualquer fração» (artigo 1421.º, n.º 1, alínea b)). A conservação desse terraço enquanto cobertura do prédio é, por isso, assunto do condomínio. Na prática, quem o usa é quem vê o ralo todos os dias, e o mais sensato é combinar em assembleia quem faz a limpeza de rotina e avisar o administrador logo que apareça uma poça ou uma junta aberta.
A varanda da sua fração é outra história: a limpeza do ralo e das pinhas no dia a dia é consigo.
Se a água já passou e é preciso saber quem paga os estragos, a lógica é a que explicámos para as infiltrações em condomínio: a responsabilidade segue a origem.
Três hábitos que entopem ralos
- Vasos com prato em cima do ralo ou mesmo ao lado. A terra que sai com a rega vai direta para a pinha.
- Varrer o terraço para o ralo. Parece o caminho mais curto para a sujidade, mas é o mais curto para o entupimento: o que se varre apanha-se e vai para o lixo.
- Deixar o terraço sem ninguém olhar durante meses. Num terraço pouco usado, uma época de folhas chega para enterrar a pinha — e só se descobre com a água à porta.
O que levar desta leitura
Na maior parte dos casos, um terraço ou uma varanda não pedem obra antes do inverno: pedem dez minutos de atenção. Pinha livre, balde a correr para o ralo, soleira com margem e juntas inteiras — se estas quatro coisas estiverem bem, a chuva sai por onde deve.
Se alguma não estiver, e sobretudo se a água chega ao ralo mas não desce, a SOS Multiassistência trata do tubo que recebe a água do terraço e do telhado com equipa própria, em toda a Grande Lisboa, e dá-lhe o orçamento antes de começar.
Perguntas frequentes
O ralo da varanda tem uma pinha ou uma grelha plana. Qual é melhor?
Depende do uso. A pinha — a peça em forma de cúpula, com aberturas à volta — continua a deixar passar água quando as folhas se acumulam na base, porque a água entra pelas laterais e pelo topo, e por isso é comum em terraços com árvores por perto ou pouco frequentados. Numa varanda de soleira baixa, é por isso a que dá mais margem. A grelha plana fica à face do pavimento e é mais segura onde se circula e se arrastam cadeiras, mas uma camada de folhas molhadas por cima tapa-a mais depressa.
Porque é que fica uma poça no terraço dias depois de chover?
Quase sempre porque a água não está a chegar ao ralo. O pavimento de um terraço tem de ter uma pendente ligeira que leve tudo para o ponto de saída; se há uma zona mais baixa noutro sítio — por assentamento de mosaicos, por uma obra antiga ou por um defeito de origem —, a água fica ali até evaporar. Uma poça que se repete no mesmo sítio não é só incómoda: mantém as juntas e o rodapé molhados durante dias, e é essa humidade repetida que os degrada. Para confirmar, despeje um balde de água num dia seco e veja para onde corre. Corrigir a pendente é obra, não limpeza.
O meu terraço só tem um ralo. É um problema?
Não necessariamente, mas significa que não há plano B. Com uma única saída, basta a pinha ficar tapada numa chuvada forte para a água começar a subir, e o risco cresce com a área do terraço e com as árvores à volta. Muitos terraços têm uma segunda saída mais alta — um ladrão ou uma gárgula — precisamente para esse caso: se o ralo entupir, a água sai por ali antes de chegar à soleira. Se o seu não tem, a limpeza antes das chuvas passa a ser ainda mais importante, e acrescentar uma saída de segurança é um trabalho de obra que vale a pena avaliar.
O terraço de cobertura é de uso exclusivo do último andar. Quem trata do ralo?
O Código Civil considera partes comuns do edifício o telhado e os terraços de cobertura, ainda que destinados ao uso de uma fração (artigo 1421.º, n.º 1, alínea b)). A conservação do terraço enquanto cobertura do prédio é, por isso, assunto do condomínio, através do administrador. Na prática, convém ficar decidido em assembleia quem faz a limpeza de rotina, e quem usa o terraço deve avisar o administrador quando vir uma pinha partida ou uma poça que não seca. Quem paga os estragos de uma infiltração que já aconteceu é outra conversa, que depende da origem.
Posso lavar o terraço com mangueira ou com máquina de pressão?
Com mangueira, sim, desde que retire primeiro as folhas e a terra à mão: se as empurrar com água, vão todas parar ao ralo e ao tubo. A máquina de pressão pede mais cuidado. Um jato forte apontado às juntas entre mosaicos, ao rodapé e à ligação entre o pavimento e a parede pode abrir o que já estava fraco — e são precisamente esses os pontos por onde a água parada encontra caminho. Se a usar, mantenha o jato afastado dessas zonas e nunca o aponte para o ralo.


